terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Segundo dia de um mês qualquer, eu nasço.


Nasceu num dia 02 de abril.
Depois de novo, num dia 02 de agosto.



                No dia 01 de agosto de 2006, Maria de Fátima estava tendo um bom dia. Era um daqueles dias em que nem lembrava que tinha um tumor no coração. Três meses aguardando uma cirurgia não lhe haviam feito bem. Quando estava no colégio, Maria reclamava com constância da rotina escolar com os amigos. Era uma espécie de esporte que unia os alunos, reclamar de tudo que eles tinham que fazer, de acordar cedo, das provas, de ter que estudar ou da quantidade de tempo que passavam em aula. Mas durante aqueles três meses em que era obrigada a estar longe do colégio, a rotina era uma das coisas que mais lhe faltava. Ela andava vivendo dias vazios de sentido. Não havia nada acontecendo na sua vida que indicasse que ela estava se movendo para algum lugar, traçando um caminho. Tudo era paralisia. Maria fora liberada das avaliações do colégio, até que se recuperasse de operar, logo, não se sentia estimulada a estudar, porque não precisava fazer nenhuma prova. Também não se sentia estimulada a fazer nada que não tivesse a ver com o colégio.
Nos primeiros dois meses, Maria havia lidado bem com  falta do que fazer , leu livros e viu filmes que sempre teve vontade, acompanhou programas de t.v de todos os tipos, dos mais idiotas aos realmente interessantes. Em suma, ela não havia feito nada que tivesse a ver com responsabilidades por um tempo. A não ser ocasionais momentos de estudos, raros e de véspera para uma prova ou outra que ela fazia em casa, pra não perder o ano. Mas àquela altura, depois de meses vivendo dias sem o mínimo resquício de seriedade, não sentia mais vontade de ver filmes, nem ler livros - estava um pouco cansada de acompanhar histórias que não eram a dela, enquanto nada acontecia na história da vida dela. Não havia nada também que pudesse fazer pra relaxar, porque não havia sentido em relaxar quando seu dia-a-dia não te legava cansaço nenhum. A coisa que Maria mais fazia era dormir: dormia à noite muito bem, depois dormia depois do almoço, por um bom pedaço da tarde. Sempre que acordava, sentia uma agonia absurda porque não havia nada a ser feito na vida desperta. Então, ela desejava que pudesse ficar com sono logo de novo, pra poder escapar do seu fantástico e solitário mundo do nada-acontece. Tanto era assim que contava suas horas em referência ao horário em que seria aceitável dormir de novo. O presente lhe incomodava, pois era estanque. Então, ela punha-se a planejar o futuro. Quando o fazia, no entanto, imediatamente recordava que fazer planos para os tempos que viriam, era inútil. Ainda tinha uma cirurgia para enfrentar e todos os meses de recuperação. E ainda havia a possibilidade muito ruim das coisas darem errado, na cirurgia, na recuperação... Em tantos momentos. Mas a que a preocupava principalmente, era a de perder o ano no colégio e não estar mais na turma dos seus amigos. Aí a solidão daqueles meses se perpetuaria por anos. Qualquer plano para um futuro próximo que pudesse aliviar o peso do presente petrificado que vivia, se dissolvia diante desses pensamentos.O futuro ,então,  parecia distante e inatingível – estava sempre obliterado pela certeza de que muitos meses de espera, dor e solidão viriam. Ela estava presa naquele eterno presente encantado, que estava imune às vicissitudes da vida e às novidades e portanto, estava suspenso do tempo. Era um beco sem saída solitário, porque era só dela. A vida de todos à sua volta continuava. E ela esperava.
Mas naquele dia 01 de agosto, Maria de Fátima estava bem. Havia esses dias de alívio, em que ela ficava otimista e achava que tudo ficaria bem mais cedo do que ela previa. De repente ela se via voltando à rotina, à companhia dos amigos, à vida normal e à todas as possibilidades do futuro se abriam diante dela. Nesses momentos, lembrava que tinha apenas 14 anos e uma vida inteira pela frente pra fazer as coisas darem certo e compensar qualquer dor e inércia daqueles dias. Eram dias raros, mas ela gostava muito deles. Foi um dia nublado e ventoso, aquele 01 de agosto. E Maria de Fátima pensou, num arroubo de intimidade com o vento, que é claro que ele deveria vir nos seus bons dias. Ela amava o vento, ouvi-lo e senti-lo. E em todas as suas lembranças boas estava ventando, embora ela já não soubesse mais se ela acabou inventando todo aquele vento, ou se realmente era uma coincidência verídica. Ela aproveitou aquele presente da natureza e abriu as portas e as janelas de casa o máximo que pode pra deixar o vento entrar. Ela se alegrava de ver as cortinas dançando e os sininhos da varanda tocando. O pai veio em casa à tarde, naquele dia, pra lanchar, entre um horário de trabalho numa escola e outra (seu pai era professor). Levou broas de milho, que Maria amava. Ela comeu duas, bem gordas e fez um café pra acompanhar. E pra finalizar a cena feliz, ela resolveu assistir a fita cassete da sua história de princesas da Disney favorita :  “A bela e a fera”. Esses dias ventosos, de janelas e portas abertas pro mundo, eram os que ela mais gostava para ver aquele filme que era tão especial pra ela. Então, ela assim o fez.  
                Quando já caía a noite, veio a surpresa. Quando Maria de Fátima menos esperava, a secretária da médica que ia lhe operar ligou, dizendo que ela poderia operar no dia seguinte. Maria desconfiou, achou que chegaria lá, passaria por uma série de exames e seria mandada pra casa de novo, por conta de defesas baixas, ou alguma outra problemática, como já estava virando costume. De qualquer forma, avisou o pai e a mãe e os três foram à noite para o hospital. Quando ela chegou lá, além dos exames de sempre, viu a mãe e o pai assinarem papéis e passarem por uma burocracia que não haviam passado antes. Também viu a médica responsável pela sua cirurgia lhe chamar pra conversar e explicar todos os riscos daquela operação. Eles parariam seu coração e seu sangue ficaria circulando através de máquina. As possibilidades de a máquina falhar eram poucas, mas existiam. Maria sentiu medo quando a doutora lhe falou disso (mas alguns anos depois iria adorar fazer piadas sobre como seu coração já parou por horas e ela continuava viva).
 Uma ansiedade tomou conta dela, enquanto novos eventos de repente a despertavam para a realidade: ia operar o coração. Não se sentia preparada, não pensava sobre isso há dias e de repente estava de novo se descobrindo doente. O tumor havia crescido naqueles três meses, conforme tinham lhe avisado e ela se assustou um pouco com essa notícia.  Era irônico mas, de repente, quando ela menos esperava, tudo que ela havia esperado por três meses, estava acontecendo. Impressionante como tantas coisas importantes na nossa vida acontecem quando menos esperamos e de forma que nos faz perceber que há elementos determinantes pra nossa jornada e sobre os quais não temos nenhum controle. Maria de Fátima atestava isso naquele dia, mas só ia realmente aprender em todo seu significado sobre essa conclusão, muito tempo depois.
                Maria operou no dia 02 de agosto, de manhã bem cedo. Não se lembrava de nada desse dia pelo menos até oito horas da noite, quando ela acordou na UTI, bem grogue e viu os pais ao lado da cama onde ela estava, assim como um dos médicos que haviam lhe operado, segurando um vidrinho com o tumor que haviam extraído dela. Ele tentou lhe falar alguma coisa sobre o tumor, mas ela voltou a dormir antes que pudesse entender. Acordou de novo por volta de uma hora da manhã. À essa hora, a UTI estava vazia e silenciosa. Acordou sentindo dores e sensações horríveis, que nunca havia sentido antes e sentiu um medo absurdo, porque não havia ninguém à vista – nem seus pais, nem nenhum médico. Alguns dos dez piores minutos da sua vida foram aqueles em que estava ali deitada, sem poder se mexer, sentindo dores horríveis, uma falta de ar horripilante e não havia ninguém por perto. Ao fim de dez minutos, uma enfermeira passou por ali e percebeu que ela tinha acordado. Perguntou se ela queria comer alguma coisa, ou queria água, mas ela não queria nada.
Maria alertou a enfermeira de que se sentia mal, que estava com dor e que não conseguia respirar, precisava de ajuda. A enfermeira lhe pediu paciência, com todo tom agradável da única pessoa naquele diálogo que não sentia dor alguma. Ela trouxe água, trocou uns curativos, perguntou se sentia algum incômodo ou enjoo e colocou na sua mão um pequeno interruptor que ela deveria apertar caso se sentisse enjoada, pois ela teria que lhe ajudar a vomitar, do jeito que estava presa na cama, pelos aparelhos. A enfermeira foi embora e o desespero voltou. A dor e a falta de ar aumentavam quando não tinha ninguém por perto. Ela estava morrendo de medo e se sentia absolutamente abandonada naquela cama de hospital, numa posição em que não podia ver, nem ouvir ninguém. Ficou consternada de ficar chamando a enfermeira o tempo todo, mas foi o que fez. Duas vezes pra vomitar e mais algumas outras porque a falta de ar estava insuportável. A moça resolveu chamar uma médica, depois de tanta reclamação, pra verificar por qual motivo Maria estava tendo tanta dificuldade de respirar. Com a agitação que Maria de Fátima estava provocando e a sensação de que algo estava sendo feito para melhorar sua dor, ela sentiu-se com menos medo e menos sozinha. De qualquer forma, sentia uma dor nas costas horrível. Era daquela dor que partia sua falta de ar. Resolveu levantar da cama, pediu a enfermeira e ela lhe disse que aquilo não podia acontecer, de jeito nenhum. Uma sensação de incapacidade e falta de controle do seu próprio corpo se apoderou dela. Sentiu-se desesperada e fraca diante da dor e da impossibilidade de se locomover. Chorou pedindo pra sair dali, mas enfermeira foi firme dizendo-lhe não. Ao mesmo tempo, preocupada com seu conforto, lhe trouxe um travesseiro pra mudar de posição. Ela explicou pra Maria que quando se fica muito tempo deitada, aquela dor poderia acontecer. Ela ajudou Maria a se sentar na cama, mas a dor e a falta de ar não afrouxaram. Queria sair dali, levantar, andar – Maria tinha certeza que ficando em pé e andando um pouco, a dor melhoraria. Mas não podia se levantar, nem se mexer, nem andar. A menina teve um vislumbre  de como deveria se sentir  alguém que perdesse os movimentos das pernas. A agonia real de não poder explorar todas as capacidades do seu corpo, quando precisava. Sentir-se talhada das suas possibilidades era uma sensação que ela não iria esquecer. Era o que a faria compreender  a sensação de indignidade para um deficiente físico que vivia em uma cidade completamente despreparada para ele. Sendo que aquilo que ela viveu aquela noite, Maria sabia, era um milésimo de toda a agonia que devia existir para quem realmente sofria com a incapacidade de se locomover. Ao mesmo tempo, Maria entenderia daquela experiência e de outras ao longo dos meses de recuperação da cirurgia, todo o potencial que sua juventude lhe dava, para realizar, quando se deu conta de que cada movimento do corpo, implicava em um grande poder e uma bonita independência.  
 Ninguém tinha preparado a menina pras dores e sensações que ela sentiu naquela noite. As dores em todos os lugares, os enjoos, a impossibilidade de sair da mesma posição e é claro, a falta de ar insuportável que lhe sufocava. Quando a médica veio, explicou à Maria que aquela falta de ar não existia e lhe falou que um aparelho que media o aproveitamento dos seus pulmões media 100%. Como Maria não podia se virar pra ver os aparelhos, nunca ficou sabendo se era verdade, mas quando a médica disse aquilo, sentiu-se melhor. Acalmou-se por alguns instantes. Mas aí, logo depois, todos foram embora de novo. A médica, a enfermeira e aquela calma superficial advinda da sensação de que algo estava sendo feito, porque outras pessoas estavam se movimentando por ela, lhe explicando as coisas, lhe trazendo travesseiros (o importante era não ficar parada naquela dor, sentir dor e não poder fazer nada, era a pior sensação que poderia ter). Sentiu-se desesperada de novo e sozinha. Muito sozinha, naquele ambiente escuro e silencioso, quase fúnebre. Sentiu raiva dos pais por não estarem ali e ficou vontade de chorar. Ela tinha só 14 anos, alguém deveria estar lá com ela naquele momento. Ela havia até pedido pra chamarem os pais (várias vezes, em meio às crises de falta de ar), mas a enfermeira havia dito que eles foram pra casa. Os dois haviam ido pra casa e deixado ela lá sozinha. Sentiu-se distante de casa e abandonada nas duas dores. Levou pelo menos uma hora no escuro daquele leito de UTI, tentando dormir. As dores nas costas não deixavam ela relaxar. E se sentiu só. 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

2 e 1/2.


Não quero lhe falar meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi e tudo que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa







                        Tudo começou com o coração. E Maria de Fátima suspeitava: era com o coração que tudo iria terminar. Ela tinha 14 anos quando descobriu um pequeno tumor nesse órgão. Nunca havia sentido nada que pudesse denunciar aquele intruso de 2,5 cm. Mas ela aprendeu cedo a não subestimar as pequenas coisas pelo seu tamanho. O impacto que aqueles 2,5 cm tiveram na sua vida foi enorme o suficiente pra mudar tudo e só havia uma solução para eles: cirurgia cardíaca. Dos meses de espera pelas condições perfeitas para a cirurgia – físicas e burocráticas- ela se lembrava com um certo ar de surrealismo. Como se sua rotina estivesse por algum tempo suspensa da vida real que acontecia em algum lugar distante. Muitas consultas médicas, muitos exames e um afastamento forçado da vida escolar. Ela não podia assistir aula porque todas as salas de aula no seu colégio ficavam no segundo andar, ao qual só se tinha acesso subindo três lances de escada. Mas ela não podia subir escadas, nem fazer qualquer esforço físico. Cada disparo do coração era colocar-se em risco, pois o tumor podia soltar-se da parede onde estava fixado e bloquear suas artérias. Entre a descoberta do tumor e o dia da cirurgia, passaram-se três meses. Maria não lembrava muito bem o que tinha feito durante todo esse tempo. Parecia que a única coisa que ela tinha feito tinha sido esperar pelo grande evento que vinha chegando e que ia salvá-la. E de alguma forma estranha, ela não sentia que estava fazendo nada de muito diferente do que fez pelos 14 anos anteriores. Então, Maria de Fátima esperou.
                        Três meses depois, ela já nem acreditava que o dia da cirurgia ia chegar. Tinha passado tanto tempo, que ela já não dava tanta atenção ao assunto. Os colegas de escola perguntavam por que ela não tinha operado ainda e ela não sabia explicar direito, porque nem ela entendia. Toda a história tinha começado com grande tom de urgência. “Ela tem que operar o mais rápido possível”, era o que diziam os médicos. E quando ela foi forçada a deixar o colégio pra não correr risco de ter uma síncope no meio da sala de aula, os amigos ficaram preocupados, perguntaram, ligaram. Agora ela sentia que o desenrolar daquele caso demorava tanto, que já não ligavam tanto – nem os amigos, nem ela. Sentia mais como se tivesse tirando umas férias forçadas do que como se estivesse doente.  Já havia quase operado por duas vezes, sem sucesso. Da primeira vez, estava anêmica, da segunda, muito resfriada. Ela achou idiota não resolverem um problema tão sério por conta de um resfriadinho. Quando contaram que se ela espirrasse com força logo depois da cirurgia, podia abrir os pontos do corte que fariam e deixar o osso esterno exposto, confiou mais no bom senso dos médicos.
                        A vida esperando por uma salvação era cansativa e, principalmente, solitária. Ela não podia ver os amigos da escola, que normalmente a distraíam da própria solidão. Ao mesmo tempo, sentia que perdia uma época preciosa. Os amigos cresciam, tinha suas primeiras experiências saindo à noite para clubes e festas e só voltavam no dia seguinte, viviam aventuras que depois vinham lhe contar e ela apenas escutava, reclusa e sabendo que não podia compartilhar daquilo. Sentiu-se menos amiga dos amigos de sempre e teve medo das mudanças que percebia neles enquanto ouvia seus relatos da vida que acontecia em algum lugar bem longe do isolamento em que ela se encontrava. Do alto da sua enorme insegurança, pensou que quando retomasse a vida normal, as coisas poderiam não ser mais as mesmas, os amigos poderiam não mais reconhecê-la. Alguma coisa urgia dentro dela, alertando para os perigos de não estar presente o tempo todo perto das pessoas que gosta. “Podem descobrir que não faço diferença”, ela pensava com frequência, só porque já tinha ela mesma chegado à conclusão de que não fazia diferença pra ninguém. Maria de Fátima tinha ainda medo de que os amigos mudassem tanto e sem ela, que não pudesse os reconhecer, quando voltasse a compartilhar com eles o dia-a-dia normal. Como ela saberia então como reagir, se não fossem como ela estava acostumada? Ela ainda era jovem e demoraria muito tempo para entender que desejar que as pessoas nunca mudem poderia parecer muito poético: era prova de que realmente se gostava de alguém. Mas isso é só aparência. Querer prender um amigo que conhece há muito tempo ao seu passado e puxá-lo o tempo todo a esse lugar que ficou pra trás, quando ele quer mover-se dali ,era um grande egoísmo. Uns quatro a cinco anos seriam precisos pra ela apreender isso, ainda. Naquele momento, ela via apenas o próprio medo e a vontade de ter todos a seu dispor sempre da mesma forma, com as mesmas opiniões e inclinações (principalmente sobre ela, se eram boas) , pra que ela pudesse estar sempre segura e fosse capaz de prever reações. Assim era mais fácil de lidar com as pessoas. Ou pelo menos era o que ela gostava de pensar. Com o tempo, Maria de Fátima perceberia que grande ilusão e besteira é achar que se pode ter o controle das emoções e reações de outros e o pior, querer isso só pra não ser surpreendida. Também veria a besteirada que boa parte das suas soluções pra lidar melhor com as pessoas seria. “Na prática, nunca facilitou nada. Nunca foi fácil pra mim lidar com as pessoas e essa reação defensiva a qual eu me apeguei era absolutamente inútil, embora eu continuasse a perpetuando. Mas pra que eu continuava, se não tinha efeito real nenhum? Eu não só não conseguia controlar nada, como nem a ilusão de que poderia , conseguiu me ajudar. Por que eu insisti? Por que eu tenho tanto medo que as pessoas mudem, por que isso me aterroriza tanto?”

            Além de estar às voltar com as possíveis consequências que o afastamento dos amigos poderia causar, ela se sentia sozinha. Ficava a maior parte do tempo em casa e por lá, era sempre assim. Quatro pessoas: um pai, uma mãe e dois filhos vivendo em uma solidão acompanhada. Parecia sempre que embora compartilhassem uma casa, não conseguiam formar um lar. Não era culpa de ninguém. Ela morava com a mãe Angélica, o pai José e o irmão Jorge. E todos eles, incluindo ela, eram parecidos. Tímidos e retraídos. Eram quatro pessoas meio brutas, muito duras e sem jeito para lidar com qualquer coisa pessoal ou sentimental. Na verdade, eram quatro bichos do mato e cada um lidava com isso da forma como podia. O pai Jorge, assumia uma espécie de personagem em público, do tipo que é sempre falador e gosta de fazer graça, mas no fundo, é sempre fechado. Jorge ia pelo mesmo caminho do pai. A mãe era um exemplo de tudo que não se devia fazer em termos de sociabilidade. Era quase como se ela não soubesse lidar com pessoas e sempre que Maria a via socializando com alguém que não era da família, lembrava-se de algum tipo de animal selvagem acuado, introvertido e desconfiado. Maria, por sua vez, era meio perdida. Era a que mais obviamente tinha dificuldade de disfarçar sentimentos e a própria fragilidade. Sentia-se absolutamente desconfortável em casa em um ambiente em que todos os outros três pareciam muito confortáveis, porque podiam se esconder até de quem deveriam ser as pessoas mais próximas de si. Mas de alguma forma, assumir uma postura semelhante à de todos ainda era uma perspectiva melhor do que se expor diante de pessoas que afastavam – dominadas por um medo absurdo - qualquer exposição, a delas mesmas e também de quaisquer outras pessoas. Provavelmente, a contrapartida a colocar o que sentia no mundo, para Maria, seria lidar com o deboche, o desprezo e a condenação dentro da própria casa. Quando se é muito tímido, como aquelas pessoas eram, se fazia isso quase como se não fosse por mal, só pra se defender, se sentir forte diante do outro. Ainda mais se a exposição do outro te chama a se expor também. Mais fácil desdenhar e fazer pouco caso do que abrir mão do seu esconderijo seguro da timidez. Então, a menina fazia como os outros e vivia em casa dentro de um mundo só seu, à parte, que acontecia na sua cabeça. Na verdade, por mais que a casa em que Maria de Fátima vivia fosse pequena, era grande o suficiente para caber quatro mundos inteiros. Porque era mais ou menos assim, cada pessoa que morava ali vivendo em seu universo particular. E nesse mundo que era só seu, Maria dava asas a imaginação. Vivia na sua cabeça tudo que não tinha coragem de viver no mundo exterior. Sonhava aventuras, grandes feitos, diversões incomparáveis e esperava o dia em que teria condições para viver tudo aquilo que sempre quis. Entre seus planos, sentimentos, idealizações e divagações, os quais a maioria nunca chegou a conhecer a luz do mundo real, Maria esperava que alguma coisa, ou alguém viria pra salvá-la do mundo estanque e solitário que era o seu e aí sim ela poderia começar a viver. Aí sim ! Maria de Fátima não percebia, apesar dos 14 anos passados na Terra, que a vida já havia começado para ela. E a vida era pra ela justamente aquele não ser que enclausurava todo seu potencial pra vida, do lado de dentro. Ela vivia pra dentro. Internalizava tudo. Não havia afinal espaço, pra ser diferente. Não dentro de casa. Tanto era verdade que Maria de Fátima passou a maior parte do tempo que esteve em casa, em todos aqueles anos, calada. Não havia muita conversa naquela casa de brutos. Nem intimidade. Só havia intimidade nos assuntos práticos. Quando Maria de Fátima ficou doente, ninguém perguntou como ela se sentia, se estava assustada, ou com medo. Perguntaram se estava com dor em algum lugar, se sentia algum sintoma e quanto custava o remédio pra anemia da qual ela tinha que melhorar antes de operar. Todas as questões colocadas eram de cunho muito elementar. Conforto prático e concreto. Qualquer outro conforto era uma espécie de luxo desnecessário. Era sempre assim. Os grandes debates em casa eram sempre de natureza econômica e não raramente acabavam em brigas. Como se os laços ali fosse mantidos mais pela sustentação econômica que a instituição da família assegura aos seus membros, do que por qualquer outra coisa. Muito menos havia espaço naquele ambiente pra demonstrações sentimentais, carinho, ou elogios – tudo que tinha a ver com sentimentos que os membros daquela família possuíam um pelo outro, ficava sempre implícito. Recebia dos pais um abraço no Natal, outro no Ano Novo e às vezes, no seu aniversário. Ser sempre uma ótima aluna, muitas vezes a melhor em sala de aula, nunca foi motivo pra elogios, ou celebrações. Logo, ela se tornou tão estranha a demonstrações de carinho entre pais e filhos e irmãos, que quando passava um certo tempo na casa de amigas e flagrava esse tipo de coisas em outras família, sentia uma espécie de vergonha alheia. Como se tivesse alguma coisa de errado naquilo. Às vezes, Maria de Fátima pensava que era até mais que timidez pelos outros, talvez fosse inveja. Nesse ambiente frio e duro em que ela cresceu, foi solitária. Sem ninguém pra compartilhar medos e aflições, nem pra perguntar ou se preocupar sobre como ela estava se sentindo. Também não falava sobre nada disso com os amigos, na verdade. Mas pelo menos eles a distraíam, a chamavam para o mundo exterior e pra longe da história alternativa que acontecia na sua mente. E naquele momento em que não podia estar com eles, sentia-se muito sozinha.

            Como não tinha muitas opções de divertimento – não podia sair, nem ir a escola – sua grande aventura semanal era ir às quintas-feiras com a avó e duas amigas dela ao Ramatis, uma sociedade espírita. Era sempre igual : elas chegavam e ela ia tomar passe em uma sala especial no primeiro andar do prédio, já que não podia subir pro segundo andar, onde todo mundo ia fazê-lo. Sempre quem a recebia era o mesmo senhor. Um médium já bem idoso, com os cabelos muito brancos e muito lisos, alto e invariavelmente vestido de branco (ela não recordava mais seu nome).Ele sempre a recebia com um abraço e perguntava como ela estava e como andava a vida. Maria nunca dizia a verdade, falava que estava tudo bem. Então ele pedia pra que eles rezassem juntos. Ele rezava em voz alta e ela sempre em silêncio e não muito certa se deveria estar fazendo aquilo, com todas as dúvidas que tinha sobre religião e mundos transcendentais. Depois ele começava com os passes. Era uma espécie de transmissão de energia, ele sobrevoava as mãos sobre áreas vitais do corpo, enquanto rezava. Em muitos momentos, ela tinha vontade de chorar, mas não entendia porque. Depois ia reencontrar a avó e as amigas dela. A avó colocava o nome dela e de um monte de outros familiares na roda orações da família e pegava água rezada pra Maria de Fátima levar pra casa e beber aos poucos, ao longo da semana. Depois, todas iam juntas lanchar na pequena lanchonete que tinha por ali, no próprio prédio. As moças que atendiam a elas eram sempre muito simpáticas. Todos as tratavam bem e o clima era sempre confortável , aberto e pacífico. Todo mundo sabia já de que ela estava na espera por uma cirurgia e todos falavam palavras de boa sorte , que pareciam muito sinceras, por mais que no fundo, todos ali fossem estranhos. Maria de Fátima gostava de ir lá. Por mais que às vezes sentisse uma espécie de culpa por não ser religiosa e duvidar da maio parte das coisas que pregavam por ali. Pra falar a verdade, ela nem sabia se acreditava em Deus. Mas foi lá naquele ambiente religioso onde ela se sentiu acolhida, quando em todos os outros dias da semana , se sentia sozinha. Ali ouviu coisas que os pais não poderiam dizer, mas de alguma forma, ela precisava escutar. Maria de Fátima só voltaria lá uma vez, depois da cirurgia. Nesse dia, disseram pra ela que ela poderia ser médium. Ela se assustou e nunca mais voltou. Não foi medo de nada sobrenatural, foi medo de descobrirem que ela tinha dúvidas demais pra fazer parte de qualquer religião.

                        Além da visita semanal ao Ramatis, Maria de Fátima via filmes, lia, estudava de vez em quando pra fazer os exames do colégio, que passavam pra ela em casa e, na maior parte do tempo, ficava na internet. Não fazia nada de produtivo na internet. Conversava com as mesmas pessoas de sempre e passava muito tempo -  tempo demais -  vendo a vida de desconhecidos online. Se sentia mal em relação a própria vida vendo como todo mundo era feliz e tinha vidas emocionantes ( o tempo faria Maria de Fátima entender que todos parecem felizes e cheios de emoções na internet, embora na vida real, não seja bem assim). Sentia pena de si mesma. Nada acontecia em sua vida, ninguém parecia gostar muito dela – gostavam, mas nunca muito – era feia, estranha, fechada e agora, pra piorar, doente. Mas Maria de Fátima sonhava com o dia em que tudo isso iria mudar. Então, ela esperou. E se sentiu sozinha.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Um desejo, quase uma oração.


Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Adeus.


"-Adeus - disse ele à flor.
Mas a flor não respondeu.
-Adeus - repetiu ele.
A flor tossiu. Mas não era por causa do resfriado.
-Eu fui uma tola - disse finalmente. - Peço-te perdão. Procura ser feliz.
A ausência de censuras o surpreendeu. Ficou parado, completamente sem jeito, com a redoma nas mãos. Não podia compreender essa delicadeza.
-É claro que eu te amo - disse-lhe a flor. - É culpa minha não perceberes isso. Mas não tem importância. Foste tão tolo quanto eu. Tenta ser feliz...Larga essa redoma, não preciso mais dela.
-Mas o vento...
- Não estou tão resfriada assim...O ar fresco da noite me fará bem. Eu sou uma flor.
-Mas os bichos...
- É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas. Dizem que são tão belas! Do contrário, quem virá visitar-me? Tu estarás longe...Quanto aos bichos grandes, não tenho medo deles. Eu tenho as minhas garras. (...)"

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Poema em linha reta.

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."


Álvaro de Campos.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Eu, Djavan e Dr. Jivago.



Há aquelas coisas que gostamos sem nenhuma motivação racional, ou por nenhuma grande explicação. É uma simpatia que vem naturalmente, desde o primeiro contato com aquilo, ou aquele. E vem gratuitamente, o que é muito bom. É como se você descobrisse um certo dom pra amar e admirar que vai pra além dos seus padrões e obviedades. Ou às vezes, nem é o caso, às vezes, aquilo/aquele está ali na sua vida há um tempo e você nem presta tanta atenção e quando vai ver, sem saber muito como, virou uma das suas coisas favoritas. É gostoso gostar assim, de forma tão espontânea.Queria dividir hoje duas pequenas alegrias que eu cultivo no meu dia-a-dia e que vieram ser pra mim, um "gosto surpresa". Mas quero justamente dividí-las porque, descobri um sentido em mim pra elas e delas pra mim, que talvez estivesse estado sempre ali oculto, enquanto eu "gostava sem razão'', ou talvez não, talvez eu só esteja construindo eles agora mesmo.
A primeira alegria é o filme Dr. Jivago, que descobri faz alguns anos. Ouvia falar desse filme há muitos meses antes de assistí-lo, por parte dos comentadores de cinema intelectualóides, que sempre o puseram como um clássico. Desenvolvi aquela vontade intelectualóide de me aproximar do filme, mas nunca que essa vontade me comoveu o suficiente pra me fazer procurá-lo. Até o momento em que ouvi falar dele através de outro filme : uma comédia romântica chamada "Procura-se um amor que goste de cachorros". A comédia romântica bobinha me fez ter mais vontade de vê-lo do que os comentários dos críticos de cinema. Isso porque, como toda boa comédia romântica, ficou falando de sentimentalismos e não de características que todo cinéfilo ''de respeito'' DEVERIA admirar naquela obra. É, invariavelmente eu sou pega pelo sentimentalismo. E fui ver. Enfim, a conclusão foi que Dr. Jivago era uma tristeza. Triste de doer. Gente morrendo de fome, de frio e de amor. Assumi que deveria gostar do filme porque algo tão dolorido só poderia ser muito real. Mas houve algo mais. Alguma outra coisa além da minha tendência sado-masoquista que achar que a dor é o motivo do mundo me atraía para aquele filme: o próprio Dr. Jivago. Lembro que as cenas que mais me emocionaram nesse filme, nunca foram, com todo meu romantismo, as cenas de romance. Não havia como me comover com um romance quando eu estava o tempo todo julgando e condenando as atitudes e a conduta moral da “mocinha”. Meu negócio com o Jivago era outro. Me emocionava quando  o via, no meio da dor, de todo sofrimento, sempre encontrando, um motivo pra sorrir. E o via se alegrando, em meio os desgostos que viveu, com a beleza da lua uma certa noite, ou uma flor amarela que surgia no seu caminho. Havia sempre espaço para o Dr. Jivago, para se alegrar com as coisas simples. Havia nele uma boa disposição para a vida, para o que estava à volta. Uma certa vontade de ver o que havia de bom ao redor. É, gostei. E aquilo ficou na minha cabeça. Mas havia algo de diferente na minha admiração por Jivago. Eu não valorizava essas características nele porque queria tê-las, porque achava elas bonitas e distantes, como a gente costuma fazer, idealizando o que poderíamos ser, através dos heróis que em se inspira. Havia um certo conforto em admirá-lo sendo aquilo, uma certa suficiência quando me comparava àquilo que eu via. Depois entendi, o que eu vi ali, não foi só o Dr. Jivago. Foi a mim. E minha admiração, era identificação. Dr. Jivago me lembrava dos meus melhores lados, os mais bonitos e que eu teimava a deixar escondidos em algum lugar distante, na minha infância. A alegria que sempre foi minha e que consegue aparecer nos momentos mais difíceis , embora eu sempre acabe a rejeitando pra me abraçar em sentimentos ruins – era ela ali, em Jivago. Mas ela também é minha. É minha vontade da vida, do mundo e das coisas simples. Eu e Dr. Jivago compartilhamos um segredo : uma alegria resistente , persistente, que pessoas demoram uma vida para construir.
Muito depois, descobri uma música e me apaixonei muito de repente.  O nome dela é “Alegre menina”. É interpretada pelo Djavan, mas foi composta pelo Dorival Caymmi para a primeira adaptação para televisão do livro “Gabriela”, de Jorge Amado. Sobre ela, só poderia dizer, embora me sentisse pouco humilde quando pensava nisso, que parecia feita para mim. A melodia e o ritmo eram alegres , com jeito de sol aconchegante que chega depois da chuva e do frio. E a letra combinava muito com alguma coisa que eu sentia dentro de mim, sobre o mundo, sobre mim mesma. Bem, melhor mostrar a letra : 


Alegre menina - Djavan
"O que fizeste, sultão, de minha alegre menina?"
Palácio real lhe dei, um trono de pedraria
Sapato bordado a ouro, esmeraldas e rubis
Ametista para os dedos, vestidos de diamantes
Escravas para serví-la, um lugar no meu dossel
E a chamei de rainha, e a chamei de rainha"

O que fizeste, sultão, de minha alegre menina?
Só desejava campina, colher as flores do mato
Só desejava um espelho de vidro prá se mirar
Só desejava do sol calor para bem viver
Só desejava o luar de prata prá repousar
Só desejava o amor dos homens prá bem amar
Só desejava o amor dos homens prá bem amar"
No baile real levei a tua alegre menina
Vestida de realeza, com princesas conversou
Com doutores praticou, dançou a dança faceira
Bebeu o vinho mais caro, mordeu fruta estrangeira
Entrou nos braços do rei, rainha mais verdadeira
Entrou nos braços do rei, rainha a mais verdadeira"

Com a licença para livremente interpretar essa letra, de forma totalmente descomprometida com a história de “Gabriela”, que eu nunca cheguei a ler, embora a palavra “quenga”  seja constante no meu vocabulário – infelizmente, eu diria; eu cheguei a conclusão que a letra falava de uma menina, uma menina alegre que ensinava a um homem rico o que era realmente valoroso na vida. Ela enxergava para além das riquezas materiais : esmeralda, rubis, diamantes, trono, riqueza, bailes da corte. Carregava em si um valor muito maior que era o de saber amar a vida por muito menos do que é valorizado pelo mundo do dinheiro – amava-o pelas coisas simples. Pelas flores do mato, um sol, a chuva, a beleza, o amor ( é, o amor é coisa simples sim, o que o complica são outras histórias). Por entender a riqueza das coisas que são de todo homem – rico ou pobre – a alegre menina era a mais verdadeira rainha que podia existir. Reinava nessa vida, não com poder político ou econômico, mas o poder de saber viver, saber amar a vida de forma livre, independente de representações sociais de poder.
Tem coisas que parecem bobas, sobre o que valorizava essa alegre menina. “ Só desejava do sol, calor para bem viver / Só desejava o luar de prata para repousar”. Pra que mais desejaria o sol e a lua? – acredito que é a primeira pergunta que se faça.  Mas a questão não é que seja o sol e a lua. A questão é conseguir desejar as coisas simples, valorizá-las como elas são, amá-las e querê-las por nada mais do que por aquilo que elas podem te dar. Não querê-las para curar suas feriadas, nem para escapar delas, mas por entender o prazer real e concreto das coisas mais simples. O prazer de uma vida simples, que não precisa de uma grande história para ser bonita. Mas o mais impressionante talvez seja a necessidade de dizer “ Só desejava o amor dos homens para bem amar”. No entanto, é um dos desejos mais importantes da “alegre menina”.  Há tanta gente, eu mesma por tanto tempo, queria que o amor viesse me salvar do mundo e de mim mesma, queria que o amor viesse para me mudar, para provar do mundo que sou capaz de ser amada. É tão enganoso pensar que o amor vem para isso, para resolver esse tipo de questão e,ao mesmo tempo, tão comum. Por isso talvez a gente espere o amor com tanta ansiedade (às vezes com um certo desespero). Mas o amor, ele basta por si mesmo. Ele não vem pra responder nenhuma questão, ele vem pra ser vivido.
 Talvez eu só possa agora entender meu gosto por essas músicas justamente porque é só agora que estou construindo uma postura mais condizente com essa identificação. Estou escolhendo a minha alegria, ao invés do meu sofrimento. E acho que estou ficando boa nisso, porque cada vez mais entendo, a alegre menina do Djavan e o alegre Jivago da União Soviética – sou eles. 


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Cafeína.


Inspira. Expira. Inspira. Expira. Em resumo : respira. Esses deveriam ser movimentos automáticos, involuntários. Mas hoje eu me esqueci como fazê-los. Como posso esquecer como se respira? É tão natural – como as melhores coisas da vida. Mas esqueci. De repente, em algum momento solitário de uma tarde solitariamente cercada de pessoas, eu tomei uma superconsciência da minha respiração e ela me pareceu falha, incompleta. Comecei a forçar os movimentos :  puxava o ar para dentro, depois o expulsava. E quanto mais eu forçava – inspira, expira, inspira, expira – mais parecia que o ar me faltava. Claro que era impressão. Se o ar estivesse me faltando durante todo tempo em que fiquei ali, dando conta da sua ausência, eu  já teria desmaiado. Só me restava uma conclusão: minha mente estava fazendo aquilo comigo. Complicado, bem mais complicado. Se fosse só um sintoma físico resolvia-se com algum remédio.  Sintomas psicológicos não se resolvem com drogas – se camuflam, mas nunca se resolvem. Era verdade então, dores da psiquê, não contentes em  roubarem constantemente meu tempo  (e tempo muito precioso, às vezes), me desfalcavam o ar. Mas era comum. Isso eu já havia aprendido sobre mim mesma. Essa sensação de sufocamento, eu já havia experimentado outras vezes. Ela vinha nos piores momentos, os que eu estava sob maior pressão. E era sempre depois desses momentos que eu viva algum tipo de libertação significante. (Confesso que pensar nisso me deixou animada com a própria falta de ar. Ela podia me roubar o ar físico , mas trazia algum ar de libertação, lá no fundo da sensação de desconforto que um respirar capenga proporciona).
Restava pensar. Pensar e entender. Não. Quer saber? Eu tenho uma amiga que achar que eu penso demais. ‘’É como se você achasse que pensando muito sobre tudo, fosse resolver as coisas’’.  Eu respondo : “´é que eu sou meio obsessiva.”. Ela já sabe. Pensar e pensar e pensar nunca resolveu nada na minha vida, só me criou mais problemas. De tanto pensar, acabo nunca agindo. E três quartos da minha vida até agora, ficaram em pensamento. E tanto do que quis fazer  se perdeu pra sempre entre lembranças, sentimentos, informações úteis e inúteis e nunca conhecerá o mundo.  É que a vida é assim, nunca surgem duas oportunidades iguais – às vezes isso é ruim, mas também pode ser bom. De uma forma ou de outra, não posso aproveitar nenhum caso – seja com as condições aparentemente perfeitas, seja com condições inesperadamente melhores – enquanto estou refletindo sobre eles. Então talvez seja hora de mudar isso. Talvez seja hora de não pensar. E de não tentar controlar cada circunstância a minha volta, racionalizando-as. Tentando entender tudo e todas as motivações, pra estar preparada, pra me proteger (me proteger de que? Da vida?).Porque é cansativo, é destrutivo e, convenhamos, é impossível. Sendo assim, resolvi ficar na minha, apenas sentindo e evitando pensar  -  deixando a vida me levar, como diria o mestre de Xerém. 
Sentir.  Eu também tinha esquecido como se fazia isso. O sentimento é automático, involuntário, como a respiração. Mas pra mim, era difícil.  Era natural. Sentir era tão natural que vinha antes do pensar. (Vinha talvez, junto com o respirar, no primeiro choro da nossa vida, com o sentimento de dor e desconforto.). Mas eu já não conseguia mais ter uma relação natural com meu próprio sentir.  Eu não conseguia colocar o que sentia no  mundo. Ele vivia sempre restrito dentro de mim, num espaço apertado, se debatendo para sair de qualquer forma, se deixar expressar. E eu o puxava pra dentro.  O segurava com toda força. Sentir era um grande esforço. Envolvia sentimento, lágrimas escondidas, frases de efeito em redes sociais, músicas alegres, músicas tristes, masoquismo. Mas pouco envolvia de compartilhar, demonstrar, ou deixar fluir. Tudo era controlado para aparecer no momento certo – quando ninguém pudesse ver.  Reprimi o tanto quanto pude. Até que chegou o momento em que eu não sabia podia mais como fazer pra deixar meus sentimentos fluírem, pra me deixar levar por eles. Mas como fiquei assim? Como me tornei tão estranha a meus próprios sentimentos? Como me tornei tão tirânica com eles?Sempre os prendendo, sempre os retalhando, podando, repreendendo. Tudo começa com a necessidade. Houve uma época em que foi minha escolha mais fácil (mas não a única. Nunca é a única) dentro de um ambiente familiar falido. Não havia espaço em casa – não sem consequências graves – para quatro pessoas extremamente sentimentais, em constante rompantes de raiva conviverem.  Eu escolhi ser o equilíbrio, a calma, a serenidade. Escolhi calar, enquanto todos gritavam. E escolhi deixar que todos colocassem seus sentimentos, enquanto eu engolia os meus, em nome da paz. Da paz de quem? Minha que não foi. Que preço eu tive que pagar? Mas não me tornei fria, não parei de sentir. Sentia e sentia muito, mas segurava os sentimentos, me virava e desvirava e revirava por dentro, tudo em nome da paz. Era isso que eu podia fazer – eu pensava. Era a minha contribuição. Agi como pensei que seria melhor pra todos. Eu escolhi assumir o papel de ‘’criança madura’’ ( sim, ainda era criança ) e via adultos se comportando como crianças. Os olhava de cima , como quem pensava : eu não tenho nada a ver com isso, não sou isso. Mas essa maturidade que eu inventei desde muito cedo  (cedo demais ), ela nunca existiu de fato. Ela era medo, muito bem disfarçado de bom senso. Não tenho bom senso nenhum, só tenho medo, muito medo, como sempre tive. Medo de me machucar. Porque no fundo, eu sei, eu sempre soube : tentar controlar meus sentimentos era a única forma de lidar com sentimentos demais e muito intensos. Eu era arrebatada por eles – o meu amor pelas pessoas, pelas coisas, pela vida. Começou cedo e suponho que nunca vá terminar. É enorme, é daqueles indizíveis. Mas tinha a dor. Quando veio a dor , eu também fui arrebatada por ela. E mostrar minha dor, machucou ainda mais, porque a reação à minha dor foi fria, foi agressiva. Melhor então deixar pra lá – deve ter sido a minha lógica. Tenho quase certeza que foi. Foi meu jeito de me proteger e também a forma que eu arranjei de ser “aprovada”.  Já ouvi tantas vezes sobre como sou sensata, sobre como tenho bom senso, de forma que parece que nunca vou perdê-lo. Quanta bobagem. Eu não tenho bom senso, só aprendi a fingir que tenho. No fundo, eu sou sensível demais. E tenho medo.  Mas por questionáveis que fossem as bases da minha sensatez, pelo menos através dela eu pude garantir que nunca seria a agressão e a rejeição que um dia eu sofri. Não, nem isso.
Houve uma época. Eu pensei que tinha encontrado um lugar , ou um lugar-alguém, que poderia ser o meu lar , ou o lar           que eu sempre quis ter. Lar não tem nada a ver com casa, entendam. Lar tem a ver com ser completamente você, sem medos, sem receios, porque se está seguro. Lar é onde se pode ter isso. E quando fui me deixando ser eu mesma, elas vieram : a agressividade,a possessividade, o ciúmes, a irracionalidade - tudo veio fluindo, enquanto eu deixava o que havia de mais verdadeiro em mim vir à tona.  Os bons sentimentos vieram também, em toda a sua amplitude e toda a entrega. Mas eu não prestei atenção neles. Estava ocupada me sentindo culpada pela parte que eu considerava ruim. Era tudo que eu não podia ser, aquilo que eu estava sendo. Tudo piorou quando eu deixei me convenceram que essa parte de mim – que afinal, é parte de mim – ela existia porque eu era louca. Desequilibrada. Justamente aquele que um dia eu chamei de lar veio me contar dessa loucura que havia achado em mim. Depois disso, não houve espaço pra mais nada, além de auto-retalhamento e  repressão. Eu não podia, não queria ser aquilo. Não queria ser louca. Louca eram todos aqueles que um dia tinham me machucado. Eu? Eu não era nada daquilo. A surpresa não tão surpreendente : eu era sim.  Eu sou. E já sei disso há um tempo, embora só possa admitir agora. Tudo que eu tanto rejeitava nos outros, que tanto me incomodava – só me causava tanto, porque ali eu vi, um reflexo de mim mesma. Um reflexo das minhas partes cortantes. As partes que podiam machucar, agredir e invadir o que estava a minha volta. O que eu poderia fazer? Me reprimi mais, dessa vez com toda força. Reprimi tanto que perdi até certo prazer com a vida, certo sentimento que me tornava alegre, disposta ao que me cercava. Fui me perdendo de mim mesma. Me tornei triste, coisa que nunca havia sido de verdade. Tudo porque não queria ser louca, nem queria machucar  alguém que eu muito amei. Queria ser razoável, fácil, cheia de sentimentos bonitos e inofensivos para dedicar a todos. Queria ser assim, por ele. Porque era como ele achava que as coisas deviam ser e eu queria me encaixar nos quadros que ele pintava pra si, do que era bom na vida. E fui, apliquei grande esforço e muito trabalhei pra me tornar o poço de serenidade que eu aparento ser. O terrível preço que paguei por isso, só eu sei.
                Depois veio um amor maior – o maior que já senti. Foi ele que me ensinou a não ter vergonha de mim mesma. De nenhuma parte de mim. Me ensinou a me aceitar. Porque a paz verdadeira, ela começa interiormente e  não fugindo das guerras que o mundo exterior  traz.E talvez, muitas vezes, seja assumindo suas batalhas, suas guerras, que se faça a paz. Grande lição a se dar a uma pseudo-pacifista. Agora eu sabia : estava em casa. Esse sim era o meu lar. Não havia nada que eu pudesse mostrar de mim , que o fizesse ir embora. Mas não, não foi bem assim. Aquele que me devolveu minha alegria de viver. Aquele que veio me ensinar a ser mais espontânea, a me libertar da minha própria repressão. Aquele que inclusive me fez prometer que faria isso.Foi ele o mesmo que não pôde aguentar justamente quando eu comecei a fazê-lo. Pois ele também construiu um lar em mim. Calcou os pilares desse lar no meu medo e na insegurança que não me deixavam viver meus sentimentos. Enquanto lutava pra me reaver comigo mesma, eu destruía, sem querer, seu lar. Ele foi embora, em busca de uma outra casa. E eu fiquei.  E ficava me perguntando: o que a vida queria de mim?  Seria sempre assim? Alguém viria me dizer que deveria segurar meus sentimentos, porque eles era feios, ruins, ‘’maluquisses’’, outros viriam dizer que não era nada disso, e eu ficaria sempre me movimentando, perdida : ”coloque seus sentimentos pra dentro” ; “agora coloca seus sentimentos pra fora” . Pra dentro e pra fora. Inspira. Expira. Inspira. Expira. E lá vinha mais falta de ar.  Era sufocante viver aquela vida de oscilações em meio ao que as pessoas desejavam de mim.
                Mas espera. O que eu estou fazendo? – eu me perguntei, quando entendi minha sensação de sufocamento. Que tipo de pergunta era aquela que eu me fazia? Por que eu me perguntava “o que a vida quer de mim?’’ , “ o que as pessoas querem de mim?”, “como as pessoas acham que deveria ser a melhor forma d’eu lidar com meus sentimentos?” . Isso deveria importar tanto? Não. Dizem que sábio não é aquele que tem todas as respostas, mas o que sabe fazer as perguntas certas. Bem, estou fazendo todas as perguntas erradas. O que eu deveria estar me perguntando era  “o que eu quero da vida?” , “o que eu quero de mim?” , “ como eu quero lidar com meus sentimentos?”. Isso é o que deveria me mover, antes de tudo. E não  me movo? Movo, movo sim. Já faz um tempo que dou meus passos, pequenos, mas firmes, em direção a uma vida muito mais minha. Mas quando vem a relação com o outro, vem o medo e as questões : “como eu deveria agir, ou reagir?”, “Será que aprovarão meus pensamentos, ou pensarão que é porque sou idiota, insegura, cheia de incertezas e coisas com as quais não consigo lidar?” ; “Será que serei julgada por sentir isso, por demonstrar isso?”; “Será que vou agradar com meus sentimentos, ou será que essa pessoa vai embora?”. E lá vai esse grande medo com o qual não consigo romper. O medo da rejeição.E da solidão. Tudo transformado numa paranóia constante, que não me deixa ser. No final das contas, o mesmo tipo de medo que há muito tempo atrás, me fez decidir que era mais fácil não deixar meus sentimentos fluírem, que era mais fácil reprimi-los. Era mais fácil passar por cima de tudo que eu sentisse, para ser aprovável (ninguém poderia agredir meus sentimentos, se nunca o pudessem vê-los). Era ele, meu terrível e desgostoso medo, que estava lá no fundo da minha falta de ar. E como não me sentir sufocada por ele, se ele não me deixava ser? Ele não me deixava ser natural pra mim mesma? Se ele não me deixava respirar? Ah, esse medo é um velho companheiro. Às vezes, não consigo escutar nada no mundo além dele. Uma surdez seletiva que só me causa dor. Já estava de saco cheio desse medo. E de tentar ser, todos os dias, tudo que todos querem que eu seja – por medo. Vou jogar o medo fora, como já deveria ter feito há muito tempo. Já estou com raiva dele, de tudo que ele me leva a fazer, de tudo que ele me leva a ser, mas principalmente, de tudo que ele me leva a não ser. E meus sentimentos , o que farei deles?
                Inspira. Expira. Pra dentro. Pra fora. É o movimento que tenho feito sempre, em relação a meus sentimentos, projetando-os excessivamente pra dentro, só pra depois tentar desesperadamente e sem pouca luta, fazê-los sair. E isso me sufoca, porque não é uma relação natural, como deveria ser. E sei que não pode ser ainda. Mas sei que o que eu não quero : não quero ter que forçar nada, nem pra dentro, nem pra fora. Porque não é assim que se respira, nem é assim que se sente. E sei o que quero : quero me colocar no mundo, em termos de tudo que eu venho segurando dentro de mim. E vai ajudar se eu simplesmente não  tentar tomar uma superconsciência dos meus sentimentos, tentar explicá-los, ou controlá-los. Porque assim como tomar uma superconsciência da sua respiração te deixa com a sensação incômoda (e muitas vezes ilusória ) de que você não está fazendo aquilo direito e te leva a começar a forçar seus movimentos, assim também é quando a gente sente. Sentimento não é pra ficar pensando, é pra sentir. E um dia pra mim eles serão, como os atos (atos ! ) de respiração , involuntários, naturais. Vou vivê-los sem medo. Assim como não se tem medo de respirar, porque é absurdo. Também é absurdo ter medo de sentir como você mesmo. É mais absurdo colocar tudo, até seus próprios sentimentos em função do que poderia agradar aos outros. Agora, eu quero agradar a mim. E pra começar, vou tomar um café. Já estava fazendo aquilo que disse que não faria : pensando demais. Já tinha chegado às conclusões que importavam. Não adiantava ficar dando voltas e voltas em torno das mesmas questões.
                Meu pai nunca me deu muitos conselhos e recomendações quando eu estive doente, ou com alguma moléstia. Na verdade, eu e meu pai sempre tivemos uma relação meio silenciosa. Das poucas vezes que ele me falou de algum remédio pras dores do corpo, o que sempre me recomendou foi um café. Pra dor de barriga, pra prisão de ventre, pra nervosismo e pra sonolência. Cientistas que se debatam contra a não cientificidade dos fatos, nesse caso, mas a verdade é pra mim e pra ele, café sempre funcionou. Aliviava as mais distintas mazelas. Então, diante de uma falta de ar que psicologicamente eu não resolveria tão cedo ( mas resolveria), fui tomar meu café. A cafeína abre as vias respiratórias e relaxa os músculos. Era  tudo que eu precisava agora. Além disso, me deixa alerta, desperta, pra vida, pro que há ao redor. Alertar pra vida – também é tudo que eu preciso agora – me agarrar a essa vida. Viver  é sempre o melhor remédio pra quem pensa demais. Ainda mais quando você pensa sempre em função de agradar a todos, porque aí a vida te ensina que é inútil ficar a mercê de pessoas que sempre vem e vão, embora seus sentimentos, sua postura diante deles e diante da vida, fiquem. Então os sentimentos e as posturas, tem que ser só seus, de mais ninguém. E quem puder gostar de você por causa disso, bem, então não haverá coisa melhor. Ser gostado como a gente é  - é a melhor coisa do mundo. E peguei meu café. Tomá-lo pra mim é um ritual : primeiro sinto seu cheio, sinto o prazer das vias aéreas se expandindo, de relaxamento. O cheiro me lembra café feito no final da tarde pra dar coragem de encarar a noite, depois de um dia cheio. Me dá vontade de pão com manteiga e vida comum. Aí eu tomo : e um aquecimento gostoso envolve os pulmões e o coração. Se sentir aquecida por dentro, confortável com seu interior. Estar confortável como meu interior, o efeito que preciso. Quanta divagação, meu Deus, até já acabou o café. E estava doce. Uma doçura com um quê de libertação – doçura sem medo, nem insegurança. Na borra do café, veio escrito : eu sou minha. Viva a cafeína.